segunda-feira, 17 de abril de 2017

Customização para a música de Ernesto Nazareth



             ouvindo Ernesto Nazareth
por meio de braços, pernas, corpo
como um longo jardim semeado
ou em longas queimaduras no palco,
carnes árduas nos pés, cansaço,
ou no coração bem cuidado,
sem ninguém para dizer-me
quanta substância ali dançava,
corpo-a-corpo,
sem uma sombra que os separasse
nos mil passos transbordados,
deixando os dançarinos afagados 
com as mãos que se juntavam
nos enleios, desvelos vários,
nos aplausos invioláveis.

(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Penumbra III


A MENINA ACOMPANHOU COM O OLHAR o motorista ajeitar as duas malas no bagageiro do carro, depois abriu a porta do banco traseiro e se acomodou com a frasqueira à tiracolo, esperando que as zonas mais vivas do acaso – porque, apesar da pouca idade, e como era pouca, ela já sabia que a vida era assim mesmo, quando menos se esperava, sorrateira, ela surpreendia –, não se manifestassem num lampejo qualquer e, à medida que o carro ia deslizando em velocidade moderada, pelo asfalto, se descortinavam as sinuosas curvas da rótula do Abacaxi onde o motorista faria o contorno em direção à Paralela. Ainda que sinuosas, ele não perdia pelo retrovisor os trejeitos da menina, pois suas curvas, ah, essas, ele já as tinha fixado quando a apanhara na rodoviária.
Então, rápidas cortinas da memória foram se abrindo de par em par à medida que o carro avançava pela avenida deserta de vegetação. Eram tantos os passos vislumbrados pela memória, margeando a estação rodoviária, que ela se sentia perdida com a cabeça em redemoinho. Mesmo assim, a menina ia aproveitando para encher os pulmões de ar, ainda que muito poluído, e hauria o chão da vida que pairava sob um sol rasante do meio da manhã.
Nesse meio tempo, ardendo em grandes piras, lépida, ela descobriu que o seu corpo estava avivado com aquela luz que se espalhava como uma música pela cidade. Seu corpo era água transformada, um rio em convulsão à espera de um tempo ardente para a seiva inesgotável do calor dos seus verdes anos. Tinha recobrado o brilho dos olhos. Tentação, e tentada, urgia fazer do amor um uso imediato, já que trazia os lábios túmidos do incólume amor tão bem resguardado.
Assim, depois de uma noite nevoenta e quase interminável e do casal de mendigos cheio de asas, no fulcro do amor, concentrados, outras pareciam ser as palavras agora dentro de si, fazendo-a sentir-se à beira de um feliz anoitecer.
Percebia-se uma menina mais confiante. E, sem tirar os olhos do fausto da janela do carro em que tudo era novidade numa cidade grande, semeava na imaginação a rumorosa festa com a leve carícia do vento no seu rosto e se deslocando inesperadamente à zona dos quadris. Havia no seu corpo uma promessa de muito calor para o quarto do hotel e parecia ler-se nos seus olhos o desejo de abrir para Pablo, devagarinho, os segredos que restavam guardados.
Então, dirigindo-se ao motorista com as roupas de ternura que não tinham sido gastas com a viagem e sem lembrar-se das mágoas que a espera quase conspurcara o encontro, perguntou-lhe:
– Me diga uma coisa, cara, Pablo mandou você me levar para que hotel? É longe da igreja do Bonfim? Ele lhe fez alguma recomendação? Ele só vai me encontrar à noite, não é mesmo?
Sem tirar as mãos do volante, o motorista olhou gulosamente para aquela fugidia estrela, sem saber que aquela moça, ainda que bem jovem, só se interessava por homens mais velhos, e que Pablo não fora o primeiro, e disse-lhe sem patinar nas palavras:
– A igreja do Bonfim está do outro lado da cidade e fica na cidade baixa. 
Respirou fundo e acrescentou com os olhos grandes, de fome: 
–  O hotel que Seo Pablo mandou deixar a senhora é do lado oposto – sentindo que, por sua vez, os olhos dela já construíam um muro com temíveis farpas, e pareciam dizer-lhe, sem meias palavras, que guardasse a devida distância.
Confuso, mastigando uma bala de hortelã, ele suava no banco da frente do carro com o caos que se instalara na sua cabeça, era fogo em forja desde que a apanhara na rodoviária, sentindo de repente rasgos de fome, açulando a miragem das fendas que se abriam na avenida por onde os seus dedos rasgavam a voragem das amoras, comprimidas na embalagem adormecida no porta-luvas do carro, como se contornasse o púbis da menina em pulsão desmedida.
Já bebia o vinho dos amantes, quando a menina sem atropelar as letras do seu longo alfabeto de vigorosas nuvens, disse-lhe em voz alta de novelo que aprendia a viajar.
– Primeiro, à igreja do Bonfim. Mas vou logo dizendo que não quero subir a ladeira de carro. Vou subir a pé com a força das minhas pernas e depois a escadaria, pedra a pedra, porque quero o gosto do lume da subida até chegar ao mais recôndito da igreja. Depois, quero mesmo é chegar de alma lavada no hotel – deixando escapar o sorriso do antegozo do encontro com Pablo, o seu homem.
O motorista recobrou a força do seu corpo dissolvido e, por saber onde ele ardia, sabia que podia esperar em sua cristalina veia a hora do lobo. Suavemente, então, aplaudiu-a com palavras amenas de um dulcíssimo sol ou de um peixe brincando na água com os restos de comida porque o amor não é fala, mas também não é falo. E deixou que suas lapas de fogo se apagassem mansamente, seguindo em direção à Cidade Baixa para alcançar o cume da Igreja do Bonfim como ela pedia. 


(José Carlos Sant Anna)